Bible Story

O Preço de José: Lágrimas e Mandrágoras

A terra cheirava a chuva recente, um perfume pesado e doce que subia das raízes descobertas e se misturava à fumaça baixa das fogueiras do acampamento. Jacó observava, de longe, o rebanho se movendo como uma mancha viva sobre a colina....

Bíblia
A terra cheirava a chuva recente, um perfume pesado e doce que subia das raízes descobertas e se misturava à fumaça baixa das fogueiras do acampamento. Jacó observava, de longe, o rebanho se movendo como uma mancha viva sobre a colina. Seus olhos, porém, voltavam-se sempre para a tenda de Raquel, onde o silêncio era mais espesso que o feltro das paredes. Dentro, Raquel apertava as mãos sobre o ventre liso, plano como a esteira onde se sentava. O grito de Lia chegou até ela, outro. O choro agudo de um recém-nascido rasgou o ar da tarde, seguido pelos murmúrios congratulatórios das servas. Era o quarto. Quatro vezes agora aquele som tinha perfurado o seu mundo, quatro vezes a bênção que ela tanto suplicara a Javé havia sido derramada sobre sua irmã, a esposa dos olhos frágeis que Jacó carregara nos braços por quatorze anos de trabalho. — Por que me esqueces? — sussurrou, não como uma prece, mas como um acerto de contas amargo com o céu. — Dá-me filhos, ou morrerei desta falta. Jacó, ao ouvi-la mais tarde, sentiu a raiva subir-lhe à garganta, quente e impotente. Não era raiva contra ela, mas contra a própria teimosia do universo. — Porventura estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto do ventre? — sua voz saiu áspera, carregada da fadiga de um amor que não sabia como consertar uma falha tão fundamental. A resposta de Raquel veio fria, calculada, produto de noites em claro ruminando a lei não escrita de suas antepassadas. — Eis aqui minha serva, Bila. Toma-a. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos, para que eu também tenha uma família por meio dela. Era um expediente antigo, um caminho torto através do descampado da esterilidade. Jacó concordou, e o corpo jovem de Bila tornou-se um canal para os anseios desesperados de sua ama. Quando o menino nasceu, pequeno e enrugado, Raquel segurou-o com uma ferocidade triste. — Deus julgou a minha causa — declarou, e a voz ecoou na tenda como um desafio. — E ouviu a minha voz e deu-me um filho. — Ela o chamou de Dã. "Julgar". Mas a arena do acampamento era de duas. Lia, vendo que suas próprias entranhas haviam parado de frutificar, não ficou para trás. Apresentou a Jacó sua serva, Zilpa, com o mesmo argumento prático e doloroso. Zilpa deu à luz um menino, e Lia, com um sorriso que não chegava aos olhos, proclamou: — Com boa sorte! — e chamou-o de Gade. "Boa Sorte". Um segundo filho de Zilpa veio depois, e Lia batizou-o de Aser. "Feliz", disse, — pois as mulheres me dirão feliz. As estações rodavam. Os filhos cresciam, uma pequena tribo de vozes e disputas germinando ao redor das fogueiras. Num tempo de colheita das mandrágoras, aquelas raízes bifurcadas de cheiro intenso a que se atribuíam poderes de fecundidade, Rúben, o primogênito de Lia, trouxe um punhado para sua mãe. Raquel viu, e o desejo que há muito se transformara em uma chapa quente no peito falou mais alto. — Por favor, dá-me das mandrágoras do teu filho. Lia ergueu o rosto, e pela primeira vez os anos de sombra em seu coração falaram com clareza. — Não te basta haver tomado o meu marido? Tomarás também as mandrágoras do meu filho? A réplica de Raquel foi seca, um acordo de comerciante no mercado. — Muito bem. Ele deitar-se-á contigo esta noite, em troca das mandrágoras do teu filho. O sol poente tingiu de vermelho as tendas quando Jacó retornou do campo. Lia saiu ao seu encontro, não com a timidez de outrora, mas com a autoridade de quem possui um contrato. — Hás de vir a mim, porque certamente te aluguei com as mandrágoras do meu filho. — A palavra "aluguei" pairou no ar, áspera e humilhante. Jacó sentiu o peso das duas vontades femininas, um jugo que ele mesmo ajudara a forjar. E aquela noite ele a passou com Lia. E Javé, que move-Se nos mistérios dos corações e das wombas, ouviu Lia. Ela concebeu e deu à luz um quinto filho. — Deus me tem dado o meu galardão — disse, e o nome Issacar, "Galardão", foi mais uma pedra no mosaico complexo daquelas famílias. Um sexto filho veio depois, Zabulom, "Habitação", pois Lia esperava que agora, com seis filhos, o marido finalmente fizesse dela sua habitação permanente. Só então, quando o ciclo de Lia parecia completo, Deus lembrou-Se de Raquel. Lembrou-Se não como um prêmio por barganha, mas no tempo próprio de Sua narrativa silenciosa. Raquel concebeu. Os nove meses foram de um temor jubiloso, cada movimento dentro de seu ventre um milagre contestado. Quando as dores a alcançaram, foram violentas, como se a vida quisesse compensar em horas toda a demora de anos. Ela suou e lutou, e no clímax da agonia, a parteira murmurou palavras de ânimo. Mas Raquel, num último e terrível esforço, trouxe à luz um menino. Enquanto a vida a escoava por entre as esteiras, num fluído escuro e silencioso, seus olhos fixaram-se no rosto enrugado do recém-nascido. Com um fio de voz, um sopro que era ao mesmo tempo triunfo e despedida, sussurrou: — Que Deus me acrescente outro filho. E o chamou de José. "Que Ele acrescente". Morreu ali, agarrada à esperança que a consumira em vida, seu preço final pago por aquele único, precioso filho. José chorou, um choro forte e saudável, inconsciente de que seu nome carregava tanto o eco de uma petição atendida quanto o presságio de um luto futuro. Enquanto isso, sob o mesmo céu que testemunhara acordos, ciúmes e nascimentos, Jacó trabalhava. Os rebanhos de Labão multiplicavam-se sob seus cuidados astutos, as varas listradas diante dos bebedouros, os acordos sobre os animais malhados e escuros. A riqueza crescia, tangível, no aumento dos cordeiros e cabritos. Era uma bênção terrena, contável, que se espalhava pelos campos enquanto, na tenda, o pequeno José dormia, herdeiro involuntário de uma história que apenas começava, forjada entre lágrimas, mandrágoras e a insondável vontade do Deus que ouve, mesmo quando parece calado.