A noite caía sobre Gósen com um peso diferente. Não era apenas a escuridão que descia, mas uma quietude tensa, carregada de um silêncio que parecia absorver até o habitual balido distante dos rebanhos. No interior de sua casa de tijolos de barro, Aser ajustava a porta de madeira mal ajustada, sentindo o ar que vinha do deserto, súbito e frio.
Havia uma ordem estranha no ar, uma instrução que ecoava de boca em boca desde que Moisés e Arão falaram. Tudo parecia tão específico, tão carregado de um significado que Aser não conseguia entender completamente. “Um cordeiro”, disseram. “Um cordeiro para cada casa, macho, de um ano, sem defeito.” Ele próprio fora buscar o animal, escolhendo com um cuidado que nunca tivera antes. Não era qualquer cordeiro; era aquele que olhava com serenidade, cujo pêlo era da cor da areia clara. Trouxera-o para dentro, e por quatro dias o animal vivera entre eles, quase como um membro da família. Sua filha menor, Raquel, dera-lhe até um nome, “Kevir”. Aser a repreendera suavemente. Não podia afeiçoar-se.
Ao crepúsculo, seu filho mais velho, Eliabe, trouxe a faca. O momento era solene, silencioso. Aser segurou o cordeiro, sentindo o calor pulsante de sua vida contra os braços. Um instante de hesitação – era um bom animal, forte, valioso – mas depois lembrou-se das palavras: “o sangue vos será por sinal”. Com uma mão firme que tremia por dentro, cumpriu o ato. O sangue, escuro e quente, escorreu para a bacia de barro que sua esposa, Débora, segurava. O cheiro metálico e terroso encheu o ar da porta.
Foi Eliabe quem, com um ramo de hissopo, mergulhou na bacia e começou a pintar as vergas da porta. O sangue marcava a madeira áspera, um vermelho vivo e gritante contra a cor escurecida do umbral. Aser observou, um frio na espinha. Aquela mancha não era para afastar moscas ou espíritos supersticiosos; era uma declaração, um clamor mudo dirigido a algo – a Alguém – que passaria naquela noite. Débora, prática e movida por uma fé silenciosa, já estava dentro, atiçando o fogo. O cordeiro, agora esfolado e limpo, estava pronto para o fogo. Nada poderia ser deixado para o amanhecer. A pressa era parte do ritual.
O cheiro da carne assada começou a se espalhar, misturando-se ao aroma inconfundível do pão sem fermento que coziam em lascas finas sobre pedras quentes. Era um cheiro áspero, de massa crua, diferente do pão leve e arejado que Débora fazia normalmente. Aser reuniu a família ao redor da refeição, todos vestidos como para uma viagem longa, os mantos presos na cintura, sandálias nos pés. As esteiras foram postas no chão, e ele viu os olhos de Raquel, arregalados e sérios.
“Por que a comida está apressada, pai?” ela sussurrou. “Porque nesta noite”, Aser respondeu, a voz mais rouca do que o habitual, “o Senhor passa sobre o Egito. E onde vir o sangue, Ele passará adiante.”
A refeição era amarga. As ervas colhidas às pressas – chicória e dente-de-leão – arranhavam a garganta, um sabor que se confundia com o medo. A carne, porém, estava suculenta e quente, e eles a comeram com uma determinação solene, sem deixar nenhum osso inteiro. O pão ázimo, seco e quebradiço, era comido às pressas. Não havia tempo para conversas, para histórias. Cada som do lado de fora – um latido, um grito distante – fazia todos se entreolharem.
A noite avançou, pesada. Aser postou-se próximo à porta, olhando a faixa escura de sangue já escurecendo. A escuridão lá fora era absoluta, um manto espesso que parecia sufocar até as estrelas. Então, veio o grito.
Não era um grito apenas. Era um coro de horrores que se ergueu de repente da cidade egípcia mais próxima, um lamento agudo e desesperado que feria a noite como uma faca. Seguiram-se mais gritos, vindos de todas as direções, da capital opulenta à mais humilde vila. Era um som inumano, a voz coletiva de uma dor repentina e incompreensível. Débora agarrou as crianças, puxando-as para perto. Eliabe ficou paralisado, o rosto pálido. Aser sentiu suas pernas fraquejarem. A promessa fora terrivelmente real. A praga final não era sobre pragas, gafanhotos ou trevas. Era sobre o silêncio de um único quarto, sobre o último suspiro onde não havia sangue na porta.
Dentro de sua casa, entretanto, havia apenas o ruído contido do pranto, o tremor de medo, mas a vida permanecia intacta. O pranto de um recém-nascido egípcio, ecoando de alguma casa distante, atravessava as paredes e entranhava-se na alma de Aser. Ele era um hebreu, um escravo, e naquela noite fora poupado. Mas o alívio era agridoce, tingido pelo horror da justiça que se abatera do lado de fora da sua porta marcada.
Antes que o primeiro clarão do dia raiasse, o tumulto já era diferente. Não mais gritos de lamento, mas um ruído confuso de movimentos, vozes roucas e urgentes. Passos apressados batiam no caminho. E então, batiam à sua porta. Não era um capataz, mas um vizinho egípcio, um funcionário menor do armazém do faraó, seu rosto devastado, os olhos vermelhos.
“Levantai-vos!” sua voz era um raspado sussurro de dor. “Sai do meio do meu povo! Tu e todos os hebreus! IDE! Servi ao Senhor como tendes dito. E levai vossos rebanhos… tudo… mas IDE, antes que todos pereçamos!”
A pressão que antes era espiritual tornou-se física, tangível. A manhã ainda não havia nascido, mas Gósen fervilhava. As famílias saíam de suas casas, carregando trouxas apressadamente feitas, as masseiras de pão ázimo ainda amarradas às costas. O povo não foi expulso; foi vomitado pela terra do Egito. A desgraça era tão grande que não havia tempo para pilhagem sistemática, apenas para pedidos urgentes e presentes dados com mãos trêmulas, joias e objetos de prata empurrados para suas mãos, um pagamento silencioso por anos de opressão, e um desejo desesperado de vê-los desaparecer.
Aser olhou para trás, uma última vez, para sua casa. A mancha escura na verga da porta já parecia apenas uma sombra. Mas ele sabia. Sabia que naquela noite, a morte batera a cada porta, e a dele fora silenciada por um sinal. Um sinal de obediência, de fé cega em uma palavra. O cordeiro Kevir fora consumido, seu sangue fora a tinta que escrevera “poupado” sobre sua família.
A multidão movia-se como um rio lento e poderoso em direção ao deserto. Aser ajustou a trouxa nos ombros, sentiu a mão pequena de Raquel na sua. O sol começava a tingir o horizonte de um vermelho pálido, como um eco distante do sangue na porta. Eles não saíam apenas da escravidão. Saíam de uma noite que dividira a história em dois: o antes do gemido, e o depois do caminho aberto na areia. E no peito de Aser, misturado ao alívio e ao horror, nascia uma pergunta que o acompanharia por todas as jornadas: que sacrifício, e que sangue, poderia sempre marcar a porta do coração de um homem, para que a morte passasse adiante, para sempre?
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