A Majestade na Sombra do Jatobá

Era uma tarde quente e úmida, daquelas em que o ar pesa sobre a pele, e o silêncio da hora da sesta é quebrado apenas pelo zumbido insistente dos insetos. O velho Antero se acomodou na sombra rachada de um jatobá, suas costas...

A Majestade na Sombra do Jatobá

Era uma tarde quente e úmida, daquelas em que o ar pesa sobre a pele, e o silêncio da hora da sesta é quebrado apenas pelo zumbido insistente dos insetos. O velho Antero se acomodou na sombra rachada de um jatobá, suas costas encontrando o relevo áspero da casca como quem encontra um velho conhecido. Nos olhos, cansados da idade e da vista longa sobre o vale, havia um brilho de assombro quieto. Ele olhava para o rio, que serpenteava preguiçoso lá embaixo, uma fita de prata suja refletindo o sol implacável.

Veio-lhe então à memória um canto. Não um canto seu, mas um eco de uma voz muito mais antiga, que ele mesmo ouvira de seu pai, e seu pai do pai dele. Um salmo. Um salmo que era como um espelho posto diante daquele mundo todo, mostrando não a imagem, mas o sopro por trás dela.

“Senhor, Deus meu, tu és sobremodo grande”, ele murmurou, as palavras saindo baixas, misturando-se ao farfalhar das folhas. E a paisagem à sua frente começou a se transformar, não em visão, mas em entendimento. Aquele manto de luz que cobria os morros, esquentando a terra vermelha até cheirar a pó e vida, não era apenas sol. Era vestimenta. O próprio Criador, em sua majestade impensável, escolhera a luz como seu primeiro manto, e aquela claridade era apenas a orla desse tecido imenso, uma pontinha do esplendor que envolvia os céus. Antero piscou, sentindo um calafrio na nuca apesar do calor. O céu, aquele azul profundo e sem fim, era como uma tenda estendida. Ele conseguia quase ver as cordas, metaforicamente falando, presas nas montanhas ao longe, firme, inabalável. Tudo era construção. Tudo era morada.

Seus olhos baixaram para as águas. O rio parecia tranquilo agora, mas ele conhecia seu ímpeto na estação das chuvas. Lembrou das águas cobrindo os campos, poderosas, indomáveis. O canto antigo dizia que as águas, no princípio, haviam fugido. Que a voz de Deus as afrontara, e elas, em tropel, tinham corrido montanha abaixo, assustadas, até encontrarem seus leitos, os vales que lhes foram designados. Um limite. Não era à toa que os homens mais antigos tinham respeito, temor mesmo, pelas enchentes. Era a memória de uma potência contida, mas não domada.

E das águas controladas, surgia a vida. O velho observou uma vaca beber na margem distante, sua sombra molhada refletindo na correnteza. A grama ali era mais verde. A terra, regada. “Tu fazeis brotar nascentes nos vales”, pensou. E não eram apenas para os animais. As águas desciam dos serrados, furando pedra, cavando grotões, saciando os cedros altaneiros que nem mesmo a seca mais brava conseguia vencer. Ali, naquelas árvores centenárias, os pássaros faziam seus ninhos. Antero ergueu os olhos e viu um sanhaço voar, rápido e azul, em direção à copa frondosa. No alto, escondido, cantava o sabiá. A música da mata era um coral permanente, uma liturgia de gorjeios e assobios que subia, ele gostava de pensar, como incenso.

Seus ossos doíam um pouco. Mudou de posição, e o movimento fez um pequeno lagarto verde disparar sobre as folhas secas. A vida era teimosa. Pululava em todo canto. Não apenas nos campos férteis, mas na própria rocha, onde capins finos insistiam em brotar. Deus dava o alimento no tempo certo: a chuva para a semente, a planta para o gado, o pasto para o homem. Ele mesmo, Antero, trabalhara a terra a vida toda. Plantara milho, feijão, colhera abóboras redondas e pesadas. “Fazes crescer a relva para os animais e as plantas, para o serviço do homem”, o verso ecoava. Era um ciclo sagrado, uma corrente de provisão que tinha suas mãos divinas na origem e no sustento.

Mas não era um ciclo apenas de brandura. O sol que aquecia também podia castigar. A noite que trazia o frescor também trazia o desconhecido. Lá vinha, como que em resposta ao seu pensamento, uma sombra rápida cobrindo o sol. Um gavião, planando silencioso, com seus olhos amarelos fixos no chão. A vida se alimentava de vida. Havia um vigor, uma ferocidade na criação que o salmo não escondia. Os leões novos rugem pela presa, dizia o canto. E buscavam de Deus o seu sustento. Até isso. Até a lei sangrenta da selva estava sob o olhar e a permissão d’Aquele que sustenta todas as coisas. Quando Deus esconde o rosto, eles se perturbam. Quando lhes tiras o fôlego, eles morrem. Era um lembrete solene. Tudo respirava por uma permissão, por um sopro emprestado.

Antero suspirou, um suspiro profundo que vinha do peito. Sentiu-se pequeno. Muito pequeno. Ali estava ele, um homem de barro, sentado sob uma árvore que era mais velha que sua história familiar, contemplando uma paisagem que cantava uma canção sem palavras, composta antes da fundação do mundo. “Que variadas são as tuas obras, Senhor!” A frase não era dele, mas assentou-se em seu espírito como uma verdade incontornável. Tudo fizeste com sabedoria. A terra está cheia das tuas riquezas.

Olhou para o rio de novo e viu, distante, a luz do sol poente começando a se refratar na água, cintilando como milhares de pequenas lâmpadas acesas. Ali estava também o Leviatã, aquele monstro das profundezas do mar salgado, brincando nas ondas, criado, dizia o salmo, para nele folgar. O mundo era imenso, cheio de cantos e criaturas que ele, Antero, jamais veria. E tudo era parte de um todo, de uma teia de existência que dependia, a cada instante, do olhar benevolente do Criador.

A noite começava a cair de verdade. As primeiras estrelas, tímidas, pontilhavam o céu que mudava do azul para o anil. Ele sabia o que vinha a seguir no canto. Deus olha para a terra, e ela treme. Toca nas montanhas, e elas fumegam. Era a outra face. A face do poder absoluto. O mesmo Deus que veste os lírios do campo com esplendor maior que o de Salomão, podia, com um olhar, fazer tremer os alicerces dos montes.

Antero se levantou, os joelhos rangendo. Era hora de voltar para casa, para a luz fraca do lampião, para o jango simples. Enquanto caminhava devagar pelo atalho, a escuridão se adensando ao seu redor, o final do salmo veio a seus lábios, não como recitação, mas como oração genuína, nascida daquela hora de contemplação:

“Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Que a minha meditação lhe seja agradável; eu me alegrarei no Senhor.”

Era isso. Tudo aquilo – a luz, a água, a árvore, o pássaro, o rio, a rocha, a estrela que agora brilhava firme acima –, tudo era convite. Convite ao assombro. Convite ao reconhecimento. Convite ao canto. O mundo não era mudo. Estava saturado de glória. E o dever do homem, sua alegria mais profunda, era percebê-la, tremer diante dela, e enfim, juntar sua voz pequena e finita ao coro eterno da criação. A noite era fria agora, mas dentro do peito do velho Antero ardia uma chama suave e antiga, acesa pela simples, tremenda verdade de um Deus que se veste de luz e cuida, com atenção infinita, de um mundo por Ele mesmo amado.

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