Salmos 72 Antigo Testamento

A Oração que Moldou um Rei

O ar na sala do trono estava pesado, não com a umidade abafada do verão em Jerusalém, mas com o peso silencioso de uma transição. Salomão, jovem ainda, seus ombros não totalmente ajustados ao manto que Davi, seu pai, deixara, fitava...

Salmos 72 - A Oração que Moldou um Rei

O ar na sala do trono estava pesado, não com a umidade abafada do verão em Jerusalém, mas com o peso silencioso de uma transição. Salomão, jovem ainda, seus ombros não totalmente ajustados ao manto que Davi, seu pai, deixara, fitava o rolo aberto diante de si. A luz do fim da tarde entrava pelas altas janelas, poeira dourada dançando nos raios que iluminavam as palavras traçadas a tinta. Era um salmo de Davi, um último suspiro poético, uma oração que era mais profecia e bênção do que simples pedido. “Concede ao rei os teus juízos, ó Deus, e a tua justiça, ao filho do rei.”

Do lado de fora, a cidade respirava. O som distante de comerciantes fechando barracas no vale, o cheiro de pão assando e de azeite, o grito agudo de uma criança. Tudo isso parecia pertencer a outro mundo. Aqui, dentro da pedra fresca do palácio, era o mundo das ideias divinas, dos sonhos dados por Deus para um povo. O escriba real, um homem velho de dedos nodosos que servira a Davi, observava o jovem rei. Viu seus olhos, não de adolescente arrogante, mas de alguém que começava a entender o abismo entre o governo humano e a justiça celestial.

Os dias que se seguiram não foram de cerimônia vazia. Salomão, aquele pedido do salmo ecoando em seus ouvidos como um sino de bronze, começou a agir. Não com grandes discursos, mas com uma atenção minuciosa que surpreendeu a corte. Ele passava horas no portão da cidade, aquele antigo tribunal ao ar livre, onde as disputas chegavam empoeiradas e carregadas de paixão. Ali, ele ouvia. Ouvia o lamento do camponês cuja vinha fora invadida pelo animal do vizinho rico. Ouvia a viúva, com voz trêmula, reclamando de um credor impiedoso que ameaçava tomar seus dois únicos cordeiros.

E ele julgava. Seus veredictos não eram meramente astutos; procuravam um equilíbrio mais profundo, uma reparação que restaurasse não só a propriedade, mas a paz. “Ele julgará o teu povo com justiça e os teus aflitos, com equidade.” O povo começou a murmurar. Não era o murmúrio da revolta, mas da admiração perplexa. A justiça do rei, diziam, era como a chuva serena que desce sobre o campo ressecado. Não era um dilúvio que destrói, mas uma umidade constante que penetra a terra, trazendo vida de dentro para fora.

A fama se espalhou, atravessando as colinas de Judá, cruzando o Jordão, chegando aos ouvidos de reinos distantes. Enviados de Társis e de ilhas longínquas começaram a aparecer. Vinham, inicialmente, por curiosidade política. Mas ficavam maravilhados. Não apenas com a riqueza que começava a fluir para Jerusalém – o ouro de Ofir, o marfim, a madeira de cedro – mas com a atmosfera do reino. A paz não era apenas ausência de guerra; era uma presença tangível. Era a segurança de um homem que podia viajar de Dã a Berseba sem temer bandidos nas estradas. Era a mulher que plantava sua horta sabendo que a colheita seria sua, não saqueada por soldados famintos.

“Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes; os reis de Sabá e de Seba oferecer-lhe-ão dons.” E assim era. Caravanas intermináveis subiam as trilhas para a cidade montanhosa. Não eram apenas tributos de vassalos; eram ofertas de respeito. O rei de Sabá, a lendária rainha do sul, veio pessoalmente. Suas perguntas eram enigmas, testes de sabedoria. E Salomão respondia, não com arrogância, mas com uma compreensão que parecia abraçar o mundo natural e o coração humano. Ela viu a justiça administrada, a prosperidade dos mais simples, a reverência pelo nome de Iavé. E exclamou, sem precisar de poeta para compor as palavras: “Bendito seja o teu Deus, que se agradou de ti!”

Mas o coração do salmo, Salomão compreendia em seus momentos mais quietos, não estava na glória recebida. Estava no que era dado. “Ele libertará ao necessitado quando clamar, ao aflito e a quem não tem quem o ajude.” O rei lembrava-se das palavras do pai moribundo. Por isso, suas ordens iam além do tribunal. Ele instituiu armazéns reais nas cidades, não para acumular, mas para distribuir em anos de seca. Oficiais foram designados para identificar os “filhos do pobre”, aqueles sem terra, sem clã, à margem. Eles recebiam trabalho, não esmola. A terra, de certa forma, parecia responder a essa justiça. As colheitas eram abundantes, os pomares vertiam azeitonas gordas, os vinhedos produziam cachos pesados. “Haverá abundância de cereal na terra até ao cimo dos montes.” Era uma imagem vívida: a paz e a justiça não ficavam nos vales; subiam, como uma bênção visível, até os lugares mais altos e rochosos.

O próprio nome de Salomão, “Shelomoh”, parecia se cumprir. “Shalom”, a paz plena, integral. Não era a quietude da estagnação, mas o florescer de uma comunidade sob o favor divino. Ele rezava, nos aposentos privados, o salmo completo. Quando chegava aos versos finais, uma vertigem o tomava. “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, que só ele opera maravilhas. E bendito o seu nome glorioso para sempre; e encha-se toda a terra da sua glória.”

Ele, Salomão, era um instrumento. Um canal. Toda a justiça, toda a sabedoria, toda a prosperidade era um reflexo, pálido e imperfeito, da justiça, sabedoria e fidelidade de Deus. A glória não era dele. A terra que se enchia da glória de Iavé era aquela onde o fraco era protegido, o violento contido, o estrangeiro acolhido, e o nome do Deus de Israel era invocado com amor, não com temor servil.

O escriba velho, muitos anos depois, já com a vista fraca, ditava para um jovem aprendiz. Contou sobre aqueles primeiros anos do reinado. Seus olhos, embaçados, pareciam ver além das paredes de sua cela simples. “Foi como um sonho”, murmurava, sua voz um farfalhar de pergaminho seco. “Um sonho dado por Deus. A justiça descia como chuva, e a paz brotava da terra como uma flor teimosa até no solo mais pedregoso. Nós vivemos, por um tempo, dentro de uma oração.” Ele fez uma pausa, e um sorriso triste apareceu em seus lábios enrugados. “Mas os salmos… eles são sempre maiores do que nós. Falam de um rei, de um reino… que a nossa realidade só consegue acenar de longe. Como um reflexo na água, tremeluzente. A oração do velho rei Davi… ela ainda está viajando, menino. Ainda procura seu lar definitivo.”

E o velho escriba calou-se, deixando no ar a poeira dourada da memória e o eco de uma esperança que nenhum reinado terreno poderia conter por completo. O salmo continuava, sua música esperando por uma plenitude que a história humana, por si só, nunca seria capaz de alcançar.

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