O sol da tarde descia sobre as colinas de Judá com uma lentidão dourada, tingindo de âmbar as paredes de pedra da casa de Efraim. Dentro do pátio, o silêncio era espesso, quebrado apenas pelo respiro ofegante do homem sentado num banco baixo, diante de uma pilha de madeira mal talhada. Seus dedos, calejados e com um corte recente, passavam sobre a superfície áspera de uma viga que teimava em não se encaixar na outra. Há semanas ele trabalhava na ampliação do quarto para os gêmeos. Há semanas a frustração fermentava em seu peito como algo vivo.
Efraim olhou para as mãos. Foram essas mãos que lavraram a terra desde a adolescência, que cavaram o poço no fundo do terreno, que ergueram os muros que agora protegiam a casa dos ventos do deserto. Mãos fortes, ele sabia. Mas agora, diante daquelas vigas e daquelas junções que exigiam uma precisão de artífice, sentia-se um estrangeiro na própria casa. O suor escorria por suas têmporas, não apenas do calor, mas do esforço inútil. A estrutura parecia cambaleante, insegura. Um sopro mais forte e tudo viraria pó.
Do portal da casa principal, uma sombra alongou-se no chão de terra batida. Era Eliabe, seu pai, tão velho que parecia fundido às próprias rugas e ao cajado de oliveira que o sustentava. Não disse palavra. Apenas se apoiou no umbral, os olhos claros perdidos no vão entre as montanhas, onde o último lampejo do sol se refletia num fio de água distante. Efraim sentiu o olhar do velho, um peso suave e antigo.
— Não se encaixa, pai — a voz saiu mais áspera do que pretendia, um grão de areia na garganta. — Medi duas vezes, cortei três. A madeira retorce, a prumo não fica verdadeiro. Trabalho como um jumento e no fim, o que construo?
Eliabe não voltou o rosto. Seus lábios finos moveram-se, quase sem som, como se conversasse com a paisagem.
— Lembro-me de levantar o celeiro. Ano de praga de gafanhotos. Trabalhava do alvorecer ao último lampejo, achando que a força do meu braço salvaria a cevada. Noites em claro, vigiando. No fim, um vento quente do leste derrubou a parede leste antes mesmo da colheita. A palha voou, a madeira rachou. Tudo aquela correria, aquele cansaço que doía nos ossos… para nada.
Efraim parou, uma ripa na mão. A história era conhecida, mas naquela tarde, com o cheiro de serragem e poeira no ar, soava diferente.
— E o que fez? — perguntou, sabendo a resposta.
— Desisti. Sentei-me neste mesmo chão, na poeira, e chorei de raiva e exaustão. No outro dia, seu avô, Salom, veio até mim. Não trouxe ferramentas, não trouxe conselhos de carpintaria. Apenas apontou para os montes e recitou um canto que aprendera de seu pai. *“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.”* Na época, achei palavras bonitas, mas vazias. Como pode Deus segurar um martelo? Como pode o Eterno apertar uma junta?
Um silêncio pairou, preenchido pelo canto distante de um pastor no vale.
— Passaram-se semanas — continuou Eliabe, a voz ganhando um fio de calor. — Eu, orgulhoso, não tocava no celeiro. Até que um dia, sem pressa, peguei as ferramentas. Não era mais uma batalha. Era apenas… uma tarefa. Rezei, não com palavras decoradas, mas com a quietude das mãos. E algo mudou. Não nas vigas, mas em mim. A pressão saiu dos ombros. A madeira, a mesma, pareceu aceitar melhor o encaixe. O vento não soprou naquela estação. E o celeiro ficou em pé por vinte anos.
Efraim baixou a cabeça. A raiva derretia, deixando um cansaço doce e pesado. Olhou para suas mãos novamente, depois para a estrutura imperfeita. Com um suspiro que parecia vir dos alicerces da terra, levantou-se e foi até o tanque de água, lavou o rosto e as mãos. A água era fria, clara. Quando voltou, seu pai havia se movido. Sentara-se num banco perto da horta, onde os brotos tenros de lentilha rompiam a terra escura.
— E a sentinela, pai? — perguntou Efraim, a memória trazendo outro verso do mesmo canto. — O salmo fala da cidade, da vigília inútil.
Eliabe sorriu, um breve tremor nos cantos da boca.
— Ah, a vigília. Quando você nasceu, naquela noite fria, eu andei de um lado para outro neste pátio até amanhecer. A cada som noturno eu estremecia. Achava que minha vigilância mantinha os perigos afastados de você e de sua mãe. Até que, no auge da minha vigília cansada, ouvi o choro forte, saudável, vindo do quarto. Percebi, então, que ele chegara apesar de meu desespero, apesar de minha vigília tola. A vida vinha enquanto eu, cego de preocupação, olhava para as sombras. *“Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”* Não que a sentinela não deva estar lá. Mas sua verdadeira força não está em seus olhos cansados, e sim na certeza de que vigia por Alguém maior.
O crepúsculo começava a tingir o céu de púrpura quando os sons mudaram. Os gritos alegres e desordenados de crianças ecoaram pela estrada poeirenta. Primeiro chegou Raquel, a mais velha, com os cabelos desgrenhados e um vaso de barro vazio na mão – fora buscar água e se distraíra com um ninho de pássaros. Atrás dela, aos tropeços, vinham os gêmeos, Judá e Benjamim, de talvez quatro anos, com os rostos sujos de doce de figo e os olhos brilhando com a aventura do dia. Por fim, Miriam, a mais nova, nos braços de sua mãe, Ana, que sorria cansada, mas com uma paz sólida nos olhos.
Eles invadiram o pátio como uma onda de vida. Os gêmeos se agarraram às pernas de Efraim, contando em frases truncadas sobre uma lagartixa gigante. Raquel começou a tagarelar sobre o ninho. Ana colocou Miriam no chão e a menina, cambaleando, foi direto para o colo do avô Eliabe, puxando-lhe a barba com dedinhos gordos.
Naquele instante, olhando aquele turbilhão doméstico, o salmo completou-se no coração de Efraim, não como uma lição, mas como uma verdade respirável. *“Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão.”* Não eram apenas seus filhos. Eram a herança viva, barulhenta e doce que lhe fora confiada. O galardão não era um prêmio por mérito, mas um dom gratuito, tão imerecido quanto a luz do sol. A casa que ele tentava construir com suas próprias forças era, na verdade, essa rede invisível de risos, choros, mãos pequenas e olhos cheios de confiança.
Ana aproximou-se, pousou a mão no ombro dele, sujo de serragem.
— Deixe para amanhã, Efraim. A casa pode esperar. Esta — e seu gesto abarcou as crianças, o velho pai, o pátio aconchegante — esta já está edificada.
Efraim assentiu. Não havia mais urgência. A estrutura de madeira inacabada parecia menos uma acusação e mais apenas uma coisa a ser feita, no seu tempo, com as mãos, mas com o coração em repouso. A sentinela em seu peito baixou a guarda. A cidade estava segura. Não por seus muros de pedra ou vigias, mas por uma Presença silenciosa que cercava o vale, a casa, o pátio e aqueles pequenos corações que corriam sob o primeiro luar.
Eliabe, com a neta no colo, cantarolava baixinho a melodia antiga, enquanto as estrelas, uma a uma, começavam a cravara-se no manto escuro do céu, como pontos luminosos na construção perfeita de uma noite que não precisava de vigilantes, apenas de gratidão.
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