Bible Story
A Misericórdia que Nunca Cessa
O sol já se punha sobre Jerusalém, lançando longas sombras que se estendiam como dedos púrpura sobre as pedras claras do pátio do Templo. O ar, antes carregado do calor do dia, começava a trazer uma frescura que faria arrepios em...
O sol já se punha sobre Jerusalém, lançando longas sombras que se estendiam como dedos púrpura sobre as pedras claras do pátio do Templo. O ar, antes carregado do calor do dia, começava a trazer uma frescura que faria arrepios em qualquer um, não fosse o calor corporal da multidão. Entre os levitas que se preparavam para o serviço da tarde, estava Eliab, um homem de cabelos já embranquecidos pela idade e pelos anos de fumo dos sacrifícios. Seus dedos, calejados e finos, percorreram as cordas da sua lira, ajustando um som aqui, ali, num gesto tão antigo quanto a sua fé.
Dentro dele, porém, não havia a rotina. Havia um peso doce, uma memória que insistia em vir à tona naquela hora crepuscular. Era o salmo que tocariam, o grande cântico dos *Hodú*. "Louvai ao Senhor, porque ele é bom." A frase ecoava em sua mente não como um versículo decorado, mas como o refrão de sua própria vida. Enquanto os primeiros lampiões eram acesos, lançando brilhos tremulantes sobre os rostos expectantes, sua mente vagou.
Ele não começou no Templo. Começou muito antes, no silêncio primordial que só Deus conhecera. Em sua mente, viu não um relato ordenado, mas flashes de entendimento, como lampejos de luz em água escura. O Senhor, sozinho na vastidão sem forma, decidindo trazer à existência… tudo. E Ele o fez. Os grandes luminares – Eliab ergueu os olhos para o céu que escurecia, onde a primeira estrela timidamente cintilava. Aquele mesmo sol que agora se despedia, e aquela mesma lua que em breve surgiria, foram postos por Ele. Não por acaso, não por força cega, mas por um ato soberano de bondade. *Porque a sua misericórdia dura para sempre*, pensou, e os dedos dedilharam as cordas, quase por instinto, extraindo um acorde grave e solene.
O coro começou, vozes masculinas se elevando em uníssono, e a voz de Eliab se fundiu à deles. "Àquele que fez os grandes luminares." A melodia era conhecida, mas naquele dia ela descia por um caminho diferente dentro dele. Levaram-no ao Egito. Não ao Egito das pragas espetaculares que contavam às crianças, mas ao Egito da sua própria infância, ouvindo as histórias de seu avô. O cheiro opressivo de cebola e pó, a sensação de barro sob as unhas não lavadas, o gosto amargo da servidão. E então, o relato do golpe na porta, no meio da noite, e a pressa silenciosa, e o cordeiro imolado, e o sangue na verga. Um ato de juízo, sim, terrível e justo. Mas para eles, para os que estavam por trás da porta marcada, era pura libertação. Um golpe que partia correntes. *Porque a sua misericórdia dura para sempre*. A música cresceu em intensidade, ecoando contra as paredes de pedra.
Ele viu, então, não com olhos de ver, mas com os olhos da tradição recebida, o Mar de Juncos. Não uma passagem limpa e rápida, mas um caos de vento uivante, águas amontoadas como montanhas instáveis, areia molhada e o tropel desesperado de um povo inteiro. E atrás, o tropel ordenado e mortífero dos carros de guerra. O coração do avô de Eliab, contando a história, sempre falhava nessa parte. O medo era tangível, mesmo séculos depois. E então, o retumbar da voz de Moisés, perdido no vendaval, e o mar abrindo não um caminho seco, mas um caminho lamacento, perigoso, a própria imagem do escape impossível. E no outro lado, vendo os exércitos do Faraó tragados não por um capricho da natureza, mas pelas próprias águas que foram muro para os seus filhos, o que restava senão um silêncio atordoado, seguido de um grito que era ao mesmo tempo alívio, terror e louvor? A misericórdia, ali, vestira-se de poder esmagador. *Porque a sua misericórdia dura para sempre.*
A voz de Eliab ganhou força. Os anos no deserto vieram à tona – não os anos de murmuração que os sacerdotes citavam em advertência, mas os pequenos milagres cotidianos. A água da rocha, sim, mas também a sombra da nuvem no calor implacável do Negueve. O maná, sim, mas também a sensação de que, mesmo errantes, não estavam perdidos. Havia um rumo, mesmo invisível. E depois, os reis fortes, Ogue de Basã, Seom – nomes que soavam como ecos de monstros antigos para Eliab. Eles eram gigantes, donos de terras fortificadas, e Israel, um bando de nômais. E ainda assim, caíram. Não pela espada mais afiada ou pelo exército mais numeroso, mas porque a mão que guiava Israel era a mesma que havia separado as águas. A vitória, quando vinha, tinha o sabor surpreendente de um presente imerecido. *Porque a sua misericórdia dura para sempre.*
E então, a chegada. A terra prometida. Canaã. Eliab olhou ao redor, para as sólidas muralhas de Jerusalém, para o magnífico Templo que abrigava a Presença. Tudo aquilo fora dado. Conquistado com suor e sangue, sim, mas dado antes de qualquer esforço. A terra que mana leite e mel era um atestado contínuo da fidelidade divina. Um povo escravo, sem terra, sem identidade, agora tinha um lugar. Tinha um *lar*. E o fundamento desse lar não era a força de seus reis, nem a sabedoria de seus conselheiros, mas aquela misericórdia antiga, teimosa, que se recusava a acabar.
A canção estava no seu clímax. "E nos livrou dos nossos opressores." Eliab não pensou em inimigos filisteus ou sírios. Pensou nos opressores silenciosos: a dúvida nos anos de esterilidade de sua esposa, a doença que levou seu irmão mais novo, o desânimo que às vezes visitava sua alma como uma névoa fria. Em cada livramento, grande ou pequeno, ele reconhecia a mesma mão. A mesma bondade fundamental.
O cântico chegou ao fim. "Louvai ao Deus dos céus." A última nota flutuou no ar noturno, misturando-se à fumaça do incenso que agora subia em espirais prateadas à luz das estrelas. Um silêncio reverente pousou sobre a assembleia. Eliab baixou sua lira, os dedos formigando levemente. Seus olhos, um pouco úmidos, percorreram o céu agora pontilhado de incontáveis luzes. Cada estrela, cada planeta, aquele mesmo chão sob seus pés, a própria vida em seus pulmões – tudo era um emaranhado de atos criadores sustentados por uma única, imutável realidade: o *hesed*, o amor leal, a misericórdia covenantal de Yahweh.
Ela não era um conceito. Era a seiva da história, o fio dourado que costurava o caos da existência em uma tapeçaria com sentido. Tinha durado através da criação, do dilúvio, da escravidão, do deserto, das guerras. Durava agora, naquele instante tranquilo sob o céu de Jerusalém. E, Eliab sabia, com uma certeza que vinha do fundo de suas entranhas, duraria para sempre. Não como uma promessa distante, mas como o pulso contínuo do universo, o refrão eterno no qual todas as outras melodias, de alegria ou de lamento, eventualmente se encontravam. A noite envolvia a cidade, mas dentro dele ardia uma chama tranquila e antiga, alimentada por uma misericórdia que não conhecia ocaso.